sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ainda aqui



Will our memories survive?
Whitney Houston

Já não sei se o desejo veio logo de manhã, quando acordei e não te vi mais do meu lado, ou a noitinha, quando ainda olhava da janela do meu quarto aquela hora em que você me abraçou tão doce que eu pedi pra ser eterno. Mesmo que passe durante o almoço, mesmo que eu esqueça os toques momentaneamente enquanto outros copos e outros gostos me tomam, o desejo sempre retorna em uma velocidade descompaçada incapaz de deixar meu coração acompanhar o ritmo bumerangue de tudo isso.

Sentei na calçada ali perto e pensei em ver tua bicicleta parada no muro, aquele mesmo que você escreveu "você é o amor que eu vou levar para sempre". Eu sei, cada palavra veio em inglês e bem pequenas, como pedaços de cupcakes com confetes tão coloridos que não fui capaz de devorar tudo. Igual ao nosso amor, igual aos nossos carinhos. Ainda que intensos, nunca foram capazes de ser entregues completamente. Preferiam doses homeopáticas, pacientes, delicadas. Preferiam viver um jogo de conquista com restrição para adultos práticos e crianças ainda cegas de amor.

Hoje, quando me perguntam sobre nós, apenas digo que no fim, seremos nós. Ainda os mesmos tolos apaixonados que um dia acreditaram no felizes para sempre, sem se dar conta que toda grande série de sucesso precisa de hiatos para criar expectativa.

Texto de Patrick Moraes

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Quem disse que amores precisam ser pra sempre?



If you love me, I'll make you a star in my universe
Angus & Julia Stones

Não, amor não é eterno. Amor é estado de espírito, é intensidade que se vive talvez uma, duas, três vezes. Não é banal, mas passa longe de ser tão complexo como muitos murmuram e lamentam pelos quatro cantos da vida. Amor a gente até pode escolher na esquina virando a avenida principal ou naquele bequinho que cortamos caminho sem querer. E quando a gente escolhe, amor vira platônico, vira romance escrito com fantasias e coloridos de sonhos.

Não, amor não é lobo mau que persegue corações de capa vermelha. Amor pode ser sete anões tão pequenos, mas tão adoráveis, que é capaz de conquistar o coração de um menina tão branca quanto a neve. Amor é conto de fadas ou uma simples prosa mal contada, jogada letra a letra em um bloco de notas no fim da noite. Amor só não pode ser um fardo, carregado e impresso nos letreiros dos famosos outdoors virtuais para virar motivo de compartilhamento.

Amor não é jura de até que a morte nos separe, muito menos promessa de viver felizes para sempre. Amor é discutir, é ter ciúmes, é querer matar sufocando cada milimetro de raiva que simplesmente o próprio amor te fez passar. Amor nunca será um pote de nutella entregue de presente em pleno domingo de manhã, na cama, com beijos. Amor é sentar depois de um dia torturante e dividir o pote de nutella, mesmo que depois os dois estejam entregues no tapete, dormindo.

No fundo, amor não é definições. Amor é sensações, que você jamais poderá entender.

Texto de Patrick Moraes

terça-feira, 27 de março de 2012

Novos poemas de amor




E se foram os velhos textos, os sentimentos castigados e amadurecidos com o passar daqueles dias. Alguns exautivos, outros absurdamente prazerosos. Remoí alguns momentos, mas decidi que agora só teria novidades. Andei por mais alguns metros, me distanciei e olhei pra trás menos impaciente e mais cuidadoso.

Talvez eu tenha demorado de escrever a carta final, o parágrafo que soasse melancolicamente uma despedida, a frase que arrematasse tudo que foi vivido. Beijos e lágrimas podem definir algo que não me tirou do chão, apenas me deu vôos rasos. O legal é pensar que os velhos poemas de amor, que ainda estão sobre o banco de uma gangorra, me deixam absurdamente entusiasmado em tê-los de volta. Engraçado sofrer pela falta do sofrimento, gritar pela falta de confusão, remoer pelo que hoje virou vazio em meio a explosões de outros tempos.

Sentei no banco de madeira logo ali, no meio da confusão, e revi os pedacinhos de papéis que fui guardando na bolsa, antes de atirá-la ao mar, em um pedido de conforto. E se algum minuto dos próximos dias eu sentir saudade daqueles pedaços escritos à mão, lembrarei que estarão tão apagados quanto minhas aflições. Saudade fica, saudade vai. No fim, quero sentir falta daquilo que ainda não veio, daquilo que ainda não senti, daquele que seja pelo menos um vazio cheio de novos poemas de amor.

Texto de Patrick Moraes

cheio de vazios
que transbordam
seus sentidos 
pelo meio.
Paulinho Moska


sábado, 10 de março de 2012

Doce menos doce



So we keep waiting on the worldto change?
adaptada de John Mayer

Cansei de levar a banho maria uma sobremesa que simplesmente caramelizou. É, derrete toda hora e não consigo entender o ponto certo de tirá-la do fogo. Talvez não seja uma sobremesa a melhor metáfora que trago. Talvez nenhuma comparação consiga ser tão próxima de um bicho estranho chamado ser humano. Olho pra gente e vejo simplesmente dois momentos tão distantes que qualquer um com as lentes apuradas ririam dos dois macaquinhos que brincam de ser feliz. Nossos sorrisos são sincronizados, nossos beijos torturam qualquer olhar, mas nossos passos talvez sigam trajetos tão diferentes que está ficando complicado continuar de mãos dadas.

Não consigo viver daquele romantismo exagerado, daquele amor jogado aos seus pés. É piegas pra mim! Os motivos de pensar assim talvez sejam até mais piegas, mas é o passado. O tempo cura, mas não leva a cicatriz. Clareia, esconde, faz esquecer, mas se tornou tatuagem. Priorizar algo é como ter um filho, é querer mais que o mundo, ou simplesmente querer o mundo dando certo com aquilo. Não me venha com crises de romantismo, ora pois! Me venha com crises de afeto ou não venha. Se isso não te basta, que paremos. Nada mais me apetece como antes. Pra constar, ando mesmo é enjoado de tantos doces e tantas formas caramelizadas. Pimenta, cadê?

Texto de Patrick Moraes

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Pequenices


Cruzei o mar, estrada além,
tô aqui pra ver se ainda bate, pulsa.
Roberta Sá

De repente deu vontade de menos, começar em baixa velocidade e a pé. De repente eu só queria um amor pequeno, um desejo pequeno, uma cidade pequena e nada do que fosse grande faria meus olhos brilharem. De repente você seria capaz de tornar tudo mais simples, quebrar barreiras, sumir com toda essa bolha transparente que construi camada a camada com dor. Não, não dói mais. Hoje é apenas proteção, hoje é apenas maturação de vida necessária, adulta, uma espécie de remédio anti romances fadados ao fracasso.

Foi de repente que mudei de planos, olhei pra mim e disse que eu queria pequenices. Sorriso bobo de manhã bem cedinho, cafuné dengoso com os olhos sorrindo, com os beijos brilhando, com o coração andando tão rápido que parecia tropeçar a qualquer momento. Pão quente com manteiga, cueca jogada no chão do banheiro, lençol embolado na cama e água quente no corpo. Boas companhias em um lugar aparentemente pequeno.

De repente, olhei pra dentro e vi um coração pequeno. Um pedacinho do que já foi tão grande um dia, tão bobo, tão afetivamente disposto a amar em troca de um simples beijo. E mesmo que amar não seja só troca, e mesmo que amar seja estar disposto a, e mesmo com tantas definições subjetivas, caóticas e dramáticas em torno do verbo, eu ainda fiquei olhando pra dentro e achando tudo pequeno, do jeito que eu desejei. De repente, ser pequeno era ter crescido e toda aquela história da pequenice virou confusão.

E foi de repente que ouvi o pequeno gritar, assustado com tamanha pequenice: "Apressa o passo, esquece tudo jogado naquele quarto e simplesmente vive, menino. Amar? Na hora certa seu coração corre, deixa de ser pequeno e explode a bolha. Nessa hora, o aperto vai te contar baixinho o quanto ser pequeno deixará de valer a pena".

Texto de Patrick Moraes

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Contramão

Cause my best intentions keep making a mess of things.
Glee


E agora eu sento no cantinho da sala com um pacote de bolacha de chocolate e simplesmente tento ler meu coração. Já não sei se ele está em pedaços fragmentados e perdi o ânimo de ajustá-lo no tique-taque ideal ou se simplesmente perdi uma peça dele por essas avenidas largas que passo todos os dias. Eu queria conseguir escrever as minúncias que sinto cada noite, queria decifrar o que vejo escorrer pelos dedos. Tanto carinho que simplesmente eu poderia ter agarrado e feito um doce chamado amor. Mas será mesmo que amor a gente faz?

Fico lembrando da quantidade de 'não' que a gente derruba na vida e poderia ter permitido ser 'sim'. Talvez a gente deva aceitar primeiro e amar depois. A via por onde o amor chega é a mesma por onde caminha a paciência, mas é contrária ao desejo puro. O que seduz apenas os olhos passa na contramão e a gente só consegue acompanhar se olhar pelo retrovisor. E aí já não sei se vale a pena seguir apenas um reflexo, um olhar que se dispersa a cada espaço caminhado. E aí eu repenso todo um conceito de amor que vi nos contos de fada, que sonho a cada sessão de comédia romântica com baldes de pipoca. E aí eu já não sei se quero um acaso entregando um presente de laço grande na caixa enorme e colorida juntamente com um cartão escrito "I love you, I need you". Não, definitivamente eu preciso de construção, de amor em pedaços tão pequenos quanto os caquinhos que estou guardando debaixo da cama de casal pra mais tarde sentar e colar. E se você vier pintando em tons de perfeição, eu sei o quanto vai ser difícil o meu tique-taque acompanhar teu ritmo e, mais ainda, sei o quanto vai doer te dizer que antes de mais nada eu quero paciência no lugar de perfeição. Se for assim, valerá a pena terminar a caixinha de doces, se não, a gente refaz os conceitos, mas jamais muda de via na estrada.

Texto de Patrick Moraes

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Tortos olhares


Então você pode me encarar, eu não me importo
Você é aquele que não vai a lugar algum.
(Jessie J)


Foi torto aqueles olhos, todos os olhares mal direcionados ou simplesmente perdidos no meio da multidão que nos rodeava. Foi torto todo o jeito como não dedicamos se quer uma palavra ao outro naquele instante em que apenas os ruídos de uma batida contagiava. Foi torto o jeito como eu impensavelmente quis te ter depois disso tudo pelo simples fato de te ver como um desafio.

Já não sei até que ponto se deve levar a inclinação desnaturada que alimentei pelo simples desejo em ter. E, se bem sei, entre os melhores e piores sintomas de um taurino no meio de um mar de maus olhados é a admiração terrível pelo ter. Não te quero tanto quanto me desafiei, você é simplesmente o que não tive mais cedo e preciso brincar um pouquinho agora que te levaram pra casa. Já não sei até onde você perdeu a graça em brincar ou onde eu simplesmente desisti de ultrapassar qualquer limite para ganhar esse joguinho idiota que eu criei peça a peça.

E se tudo realmente perdeu a graça, o último riso fica aqui ou quem sabe mais a frente, quando nos olharmos em meio a uma multidão de maus olhados e nos enxergamos mais uma vez como dois apáticos bonecos de plástico que foram reduzidos a puro desejo no olhar.

Texto de Patrick Moraes